Ponto de Apoio
CombustívelPor Irisson Lima · 19 de out · 07h00 · leitura 5 min

AIE acelera liberação de mais de 20 milhões de barris de diesel dos estoques de emergência, sem nova retirada além do prometido em março

A Agência Internacional de Energia decidiu em 15 de outubro acelerar a liberação dos cerca de 100 milhões de barris que restam dos estoques de emergência prometidos em março, com mais de 20 milhões de barris de diesel, mas sem nova retirada de estoques e sem prazo. O Brasil importa 33% do diesel que consome.

Diesel a liberar (mín.)
20 mi barris
Liberado desde março
330 mi barris
Ante consumo BR em out.
80,5%

A Agência Internacional de Energia (AIE) decidiu na quinta-feira, 15 de outubro, acelerar a liberação do que resta dos estoques de emergência prometidos em março, com mais de 20 milhões de barris de diesel a serem colocados no mercado assim que possível. A medida tenta conter a alta do combustível no mundo, que chega ao Brasil pelo diesel importado, cerca de um terço do que se consome no país.

O conselho da agência, que reúne 32 países, aprovou a decisão depois de uma reunião sobre o tamanho e o ritmo das liberações. Segundo comunicado da AIE reproduzido pela agência Reuters e pelo site gCaptain, os membros concordaram em acelerar a liberação dos volumes restantes e já têm planos específicos para isso. A agência não deu cronograma.

01O que a AIE decidiu

A liberação faz parte da ação coletiva aprovada em março, em resposta à crise no Estreito de Ormuz. Na época, os países prometeram pôr no mercado mais de 400 milhões de barris de petróleo e derivados. Até agora, cerca de 330 milhões de barris já foram liberados, segundo a AIE.

Restam cerca de 100 milhões de barris, e é esse saldo que a agência quer antecipar, incluindo mais de 20 milhões de barris de diesel. Alguns membros já liberaram mais do que haviam prometido, e outros planejam fazer o mesmo, de modo que o total deve passar dos 400 milhões de barris.

O conselho também pediu aos países que produzem e refinam petróleo que aumentem a oferta, em especial de diesel. A Espanha anunciou no mesmo dia que vai liberar 4,4 milhões de barris de suas reservas estratégicas em outubro. O país já havia liberado 3,7 milhões dos 11,5 milhões de barris prometidos em março.

02Por que o mercado esperava mais

A decisão acelera sobretudo o que já estava prometido, sem criar uma retirada nova de estoques, segundo o site especializado em transporte marítimo gCaptain. Para um analista da consultoria Sparta Commodities ouvido pela Reuters, os mais de 20 milhões de barris de diesel parecem uma antecipação de compromissos já assumidos, e não volume novo.

O número também ficou abaixo do que vinha sendo discutido. Governos da União Europeia avaliavam uma proposta da França de liberar 50 milhões de barris de diesel e outros 50 milhões de barris de petróleo, de acordo com a Reuters.

A reação de preço foi pequena. Depois do anúncio, o contrato de referência do gasóleo na Europa, grupo de combustíveis que inclui o diesel, subiu para US$ 1.430,75 por tonelada, mas seguia em queda no dia.

Os Estados Unidos disseram aos outros membros que os planos atuais não bastam para segurar os preços, segundo a Bloomberg News, citada pela Reuters. O Departamento de Energia americano afirmou que novas liberações, com foco no diesel, estão em análise.

Os países da AIE ainda guardam cerca de 1,1 bilhão de barris em estoques públicos de emergência, com mais de 200 milhões de barris de diesel, segundo comunicado da agência de 11 de outubro.

03A conta em litros

Para dar ideia do tamanho, 20 milhões de barris equivalem a cerca de 3,18 milhões de metros cúbicos de diesel. É o equivalente a 80,5% do que o Brasil deve consumir em outubro, conta feita pelo Ponto de Apoio com a demanda estimada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), de 3.950 mil metros cúbicos.

A comparação dá a escala do volume, mas o preço do diesel importado se forma no mercado mundial.

04Onde o Brasil entra

O Brasil não produz todo o diesel que consome. Segundo o Ministério da Fazenda, 33% do diesel consumido no país é importado. Para outubro, o MME informa oferta confirmada de 4.184 mil metros cúbicos, cerca de 33% dela vinda de fora, e estoque nacional de 1.937 mil metros cúbicos, suficiente para cerca de 15 dias de demanda.

Por isso, o preço lá fora pesa no custo de quem importa e, no fim da cadeia, na bomba. Hoje, parte desse peso é amortecida por subvenções federais: R$ 2,12 por litro a produtores e importadores, mais R$ 1,40 por litro só no diesel importado, por 30 dias.

O pano de fundo segue apertado. Na sexta-feira, 16 de outubro, um dia depois da decisão da AIE, o barril de petróleo do tipo Brent, referência internacional, subiu 3,72% e fechou a US$ 109,86.

A liberação coordenada também está ligada a uma briga em que os Estados Unidos ameaçaram proibir a exportação de diesel. Em 2 de outubro, o Grupo dos Sete (G7), formado por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Alemanha, França, Itália e Japão, acertou liberar 100 milhões de barris de diesel e petróleo em quatro meses, com o diesel concentrado nos primeiros 20 dias. Depois disso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que o país não vai proibir a exportação de diesel, ameaça que ele havia feito para pressionar a Europa. As fontes não dizem se esses 100 milhões de barris do G7 são os mesmos que restam do plano de março.

05O que acompanhar

  • Se os países da AIE informam quando os mais de 20 milhões de barris de diesel chegam ao mercado, já que a agência não deu prazo.
  • Se a pressão dos Estados Unidos leva a uma liberação nova, além do que já estava prometido em março.
  • Se o Brent segue perto de US$ 110 nesta semana.
  • Se o governo prorroga os R$ 2,12 por litro de subvenção ao diesel, cujo período atual vai até 27 de outubro.

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Fontes

Artigos

  • Reuters (Arkansas Democrat-Gazette): IEA board approves release of diesel Ler a matéria
  • Asharq Al-Awsat (Reuters): IEA to speed up oil stocks release including over 20 million barrels of diesel Ler a matéria
  • gCaptain: IEA moves to accelerate oil reserve releases as Hormuz crisis drags on Ler a matéria
  • F+L Asia: IEA urges faster diesel stock releases as market tightens Ler a matéria
  • Kuwait Times (AFP): G7 agrees 100m-barrel release, Trump drops diesel ban Ler a matéria
  • Ministério da Fazenda: governo prorroga desoneração e concede subvenção adicional ao diesel Ler a matéria
  • Jornal do Comércio: petróleo fecha em alta e avança na semana Ler a matéria

Fotos

  • Capa: ENERGY.GOV / Wikimedia Commons (domínio público)
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