
Tapajós baixa 75 cm em uma semana em Santarém, e a rota da soja de Mato Grosso pelo Arco Norte segue sem dragagem
O Tapajós baixou 75 cm em uma semana em Santarém e 60 cm em Itaituba, segundo dados de dois boletins do Serviço Geológico do Brasil. O governo não fará a dragagem do trecho, e o setor estima em R$ 150 a R$ 250 por tonelada o custo da logística alternativa para a carga de Mato Grosso.
- Queda em Santarém
- 75 centímetros
- Frete até Miritituba
- R$ 278,75
- Logística alternativa/t
- R$ 150 a R$ 250
O rio Tapajós baixou 75 centímetros em uma semana em Santarém (PA) e 60 centímetros em Itaituba (PA), onde fica o distrito de Miritituba, destino dos caminhões de grãos que sobem a BR-163 a partir de Mato Grosso. A queda sai da comparação entre o 37º e o 38º Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Amazonas, do Serviço Geológico do Brasil (SGB); o mais recente foi divulgado na quarta-feira, 23 de setembro. A queda acontece num ano em que o governo federal decidiu não fazer a dragagem de manutenção do trecho entre Itaituba e Santarém, e o setor produtivo estima em R$ 150 a R$ 250 por tonelada o custo da logística alternativa se a hidrovia perder capacidade.
01O que o boletim mostra
No boletim anterior, divulgado em 16 de setembro, o Tapajós marcava 3,84 m em Santarém e 3,44 m em Itaituba. No de 23 de setembro, as cotas eram de 3,09 m e 2,84 m. A conta é do Ponto de Apoio, com os dois boletins oficiais.
O SGB ainda classifica os níveis do Tapajós como dentro da faixa de normalidade para o período. A vazante é esperada nesta época, e o Tapajós não aparece na lista de bacias com chuva abaixo do esperado nos últimos 30 dias.
O próprio serviço, porém, fez uma ressalva no boletim de 16 de setembro: "se não chover o esperado entre setembro e novembro, a vazante poderá se prolongar nas calhas do Amazonas, Solimões, Negro e Tapajós". Os dados vêm da Rede Hidrometeorológica Nacional, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), operada pelo SGB e parceiros.
02Sem dragagem neste ano
Em 1º de setembro, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) publicou no Diário Oficial da União a revogação do Pregão nº 90515/2025. A licitação contrataria a dragagem de manutenção da hidrovia do rio Tapajós, no trecho entre Santarém e Itaituba.
Segundo o Poder360, o governo federal não pretende voltar atrás. Ao site, o Ministério de Portos e Aeroportos disse que a decisão considerou aspectos logísticos, ambientais e sociais e os cenários hidrológicos previstos para os próximos meses. O ministério afirmou ainda que a navegação local, feita em geral por embarcações menores e de menor calado, poderá ser mantida mesmo com o rio mais baixo.
De acordo com o Money Times, o ministério manteve, em 3 de setembro, a decisão de não fazer dragagem emergencial em trechos do rio e recomendou o uso complementar do transporte rodoviário. Segundo o Poder360, comunidades locais cobram licenciamento ambiental e consulta prévia.
03O que o setor diz que está em jogo
Um ofício enviado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 28 de agosto, por um grupo de mais de 30 entidades liderado pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), estima que a falta de dragagem pode causar prejuízo de até R$ 850 milhões. O documento fala em redução de escoamento de até 5 milhões de toneladas de grãos e em custo de R$ 150 a R$ 250 por tonelada para a logística alternativa. Segundo reportagem publicada pelo NX1, entre as signatárias estão a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
São estimativas do setor, não números oficiais. Segundo o Poder360, as entidades dizem que a janela para dragar vai de agosto a outubro.
04Por que isso chega ao frete em Mato Grosso
O caminho é conhecido de quem roda na BR-163, a rota do Arco Norte. Parte da soja e do milho de Mato Grosso sobe a rodovia até os terminais de Miritituba, onde passam para comboios de barcaças que descem o Tapajós. Com menos água, cada barcaça leva menos carga, e são necessárias mais viagens para o mesmo volume. Num quadro mais grave, parte da carga precisa ser desviada para caminhões, ferrovias e portos mais distantes.
Para ter uma medida, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) registrou o frete de grãos de Sorriso a Miritituba em R$ 278,75 por tonelada na semana de 14 a 18 de setembro, o menor valor das cinco semanas da tabela do boletim, que marcava R$ 291,25 entre 17 e 21 de agosto. O custo da logística alternativa estimado pelo setor, de R$ 150 a R$ 250 por tonelada, equivale a algo entre 54% e 90% desse frete. A comparação é do Ponto de Apoio e serve só como ordem de grandeza: a estimativa das entidades mede a logística inteira, não apenas o trecho rodoviário.
O retorno também conta. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) lembrou ao Money Times que as carretas que levam grãos a Miritituba costumam voltar com fertilizante. Como referência de outra rota, na mesma semana o Imea registrou R$ 155,43 por tonelada no frete de fertilizante de Rondonópolis a Sorriso.
05O que acompanhar
A safra nova está no começo. Na semana de 14 a 18 de setembro, o Imea contava 1,15% da soja semeada em Mato Grosso.
O SGB publica o boletim da bacia do Amazonas toda semana, e o Imea divulga o frete de Sorriso a Miritituba às segundas-feiras. São os dois números que dizem se a queda do rio começa a pesar no preço do transporte. Por ora, o SGB mantém o Tapajós na faixa de normalidade para a época.
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Fontes
Artigos
- Serviço Geológico do Brasil: 38º Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Amazonas Ler a matéria
- Serviço Geológico do Brasil: 37º Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Amazonas Ler a matéria
- Diário Oficial da União: DNIT revoga pregão de dragagem do Tapajós Ler a matéria
- Imea: Boletim Semanal Soja nº 915 Ler a matéria
- Poder360: Governo quer solução rodoviária para impasse da dragagem no Tapajós Ler a matéria
- Money Times: Não dragagem do Tapajós pode travar grãos Ler a matéria
- NX1: Previsão de seca no Tapajós ameaça escoamento de grãos Ler a matéria
Fotos
- Capa: Marcelo CASTRO / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
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